sábado, 25 de setembro de 2010

Decisão em ambiente de crise: aprendendo com o meio ambiente

“Decisão em ambiente de crise: aprendendo com a natureza”.

As quatro últimas décadas parecem indicar uma piora no humor dos mercados, como fruto de uma maior sucessão de problemas econômicos. Crises econômicas fazem parte da evolução cíclica do capitalismo, conforme as teorias dos “Ciclos Econômicos”.
A questão é que parece estar havendo uma maior frequência das crises nas quatro últimas décadas, iniciando com a quebra de Bretton Woods[1] em Agosto de 1971, ao decretar que o dólar não mais finalizando o padrão-ouro, piorando com a maior abertura e integração dos mercados, a partir dos anos 80; a exemplo da “Crise das Dívidas dos Emergentes anos anos 80”, da “Crise da Ásia” em 1997/98, da “Crise das Sub-Prime nos EUA em 2008/9” e da atual crise dos países mais fracos da Eurozona. Qual estratégia seguir neste ambiente sistêmico incomum? Peter Drucker dá uma boa pista ao destacar a “busca da sobrevivência a longo prazo” como o objetivo permanente das organizações.
A incerteza cobra preço alto, dos que se julgam espertos, haja vista às várias quebras de grandes grupos empresariais desde os anos 90. No Brasil estamos em épocas de investimentos na produção e isso é confortante, todavia o cenário externo mais complexo combina com o doméstico, onde a nau brasileira (a economia) tem velejado aos saltos, ao sabor das variações da Taxa Selic.
Em Maio começou um novo ciclo de alta, pois o timoneiro (BACEN) recolheu as velas mestras para refrear o crescimento da produção diante da excessiva demanda interna e fortes pressões inflacionárias. A subida dos juros poderia causar valorização do real, não fosse o mau humor inoculado na economia global.
Nessas horas, prever câmbio é temerário e arriscado. Andar “travado” (protegido) nas posições ativas e passivas é necessário. Deixar de ganhar algo é preferível a assumir perdas impagáveis a nível de caixa em épocas de crédito escasso, de banqueiros arredios e de agências de risco com os dedos no gatilho da reclassificação. O Brasil ainda está no degrau mais baixo da escada de risco, no grupo privilegiado do Grau de Investimento, o qual assegura nosso acesso aos capitais de investidores institucionais em melhores condições. Manter a posição é ainda mais difícil do que subir, uma vez que a empresa se vê diante de um dilema, pois uma vez que os fornecedores tenham sinal verde, o projeto não pode ser interrompido sob pena de pesados encargos financeiros. O que fazer então?
Em época de maré alta, boiar não é má decisão.
Certa vez, no saguão do aeroporto Santos Dumont (RJ), ouvi de um dos mais influentes (e bem sucedidos) empresários brasileiros atuais que “em época de mar revolto, o melhor é boiar”, deixe a nau vagar ao sabor das ondas e aguarde pela maré (menor risco) baixa. A história é rica em ensinamentos a esse respeito.
Arie de Geus[2], da London Business School e Sloan Schooll of Business (MIT) foi premiado pelo Financial Times PR por suas pesquisas com base na história das maiores empresas . Segundo ele, das 500 maiores empresas da Revista Fortune em 1970, cerca de 1/3 haviam desaparecido 13 anos depois, fato este que comprova que a busca, às vezes desenfreada, pelo retorno, tem seu preço!!!
O executivo viu as empresas como seres vivos, lutando pela sobrevivência, e destacou como bem sucedidas as longevas Stora Enso, finlandesa, de papel e celulose (1288) e os “Keiretsu” Suimitomo” (1590) e Mitsui (1697), poucas grandes entre 200 e 300 anos de idade e a maioria com menos de 200 anos, entre elas a General Electric.
Por meio da ótica “biológica”, De Geus mostra que os mais idosos foram conservadores nas decisões. No reino natural, os mais bem sucedido caçadores não sobreviveram por acaso, aprenderam a calcular o risco e traçar planos de ação, a exemplo de predadores, tais como: o tubarão e a orca, no mar; o urso, o tigre, nas florestas e o falcão nos ares. Seus estilos de luta pela vida tem a nos ensinar - por serem quase todos exímios estrategistas- .
Autores vendem o sucesso mágico a um clique do mouse, no “esfregar da lâmpada”, venda certa para os incautos. Todo sucesso requer trabalho duro. Acostumamo-nos a valorizar a história de vida dos bem sucedidos, mas não damos igual valor às lições de vida (e de sobrevivência dos derrotados), alguém valoriza os Vice-Campeões da F1? O risco acompanha o caminho estreito do sucesso, uma boa dose de cautela nunca pode ser desprezada.
Sobreviver vale a pena diante da volatilidade dos mercados. Na dúvida, sempre se deve também olhar pelo “retrovisor da experiência” e aprender com os erros dos demais.
[1] MOFFIT, Michael. O Dinheiro do Mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1984.
[2] DE GEUS, Arie. The Living Company. Harvard Business School Press. 2002.

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